Por Alexandra Matias | Professora Catedrática de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto; Assistente Graduada de Ginecologia e Obstetrícia e Medicina Fetal
Uma em cada quatro gestações termina em perda gestacional precoce. Metade das perdas gestacionais são causadas por aneuploidia fetal, mas a avaliação genética da perda gestacional não é realizada por rotina. A hibridização genómica comparativa por microarray (aCGH) do tecido da gravidez pode explicar a perda recorrente da gravidez, mas há dificuldade em recolher tecido gestacional, risco de contaminação com DNA materno e mosaicismo.
O DNA fetal livre de células (cffDNA) do sangue materno, com origem no trofoblasto fetal, tem potencial para avaliação não invasiva do estado de ploidia fetal, dado que a eliminação do cffDNA do sangue materno é mais lenta nos casos de perda gestacional.
Trata-se de um estudo prospetivo de coorte de 18 meses em que grávidas com perda gestacional das 5 às 22 semanas foram recrutadas pelo estudo Copenhagen Pregnancy Loss (COPL). O sangue materno foi colhido enquanto o tecido da gravidez ainda estava in situ até 24 horas, e foi analisado por cffDNA. A sequenciação direta do tecido da gravidez foi feita simultaneamente como referência.
Foram incluídas 1.000 mulheres consecutivas com perda gestacional. As primeiras 333 mulheres com perda gestacional serviram para avaliar a validade do teste. Os resultados das outras 667 mulheres foram incluídos para avaliar o desempenho do cffDNA. A sensibilidade do cffDNA na deteção de aneuploidia foi de 85% e a especificidade de 93%, em comparação com a sequenciação direta do tecido da gravidez: 45% euploides, 41% aneuploidias, 4% aneuploidias múltiplas e 11% inconclusivas.
O cffDNA mostra potencial e viabilidade para distinguir a perda da gravidez euplóide e aneuplóide, e melhorar a orientação clínica da futura gravidez.
As principais limitações são a janela de tempo estreita para amostragem de sangue para cffDNA e taxas mais altas de no call (50%) em amostras de sangue colhidas após o abortamento antes das 7 semanas.