Por Maria Afonso | Assistente Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia //ULS Loures-Odivelas
O aconselhamento quanto a realização de uma amniocentese após as 24 semanas de gestação é um desafio na medicina fetal, pois a evidência sobre a capacidade diagnóstica e os riscos associados ao procedimento não se encontra bem estabelecida na literatura.
Este estudo retrospectivo multicêntrico, teve como objetivo avaliar os desfechos e complicações na realização de amniocentese após as 24 semanas de gestação em fetos com elevada suspeição de patologia fetal. Foi definido como complicação após o procedimento qualquer evento adverso que ocorresse até duas semanas após o mesmo.
Nesta coorte que incluiu 752 gestações, a amniocentese teve uma capacidade diagnóstica de 22,9%, sendo que um diagnóstico foi feito 2,4 vezes mais frequentemente em fetos com anomalias em múltiplos sistemas de órgãos.
Ocorreu uma complicação em 1,2% (9/747) dos casos – 2 casos de morte fetal, em fetos com aneuploidia; 2 casos de descolamento prematuro de placenta; 2 casos de parto pré-termo (PPT) e 2 casos de rotura prematura de membranas pré-termo (RPMPT); e 1 caso de suspeita de hipóxia fetal na sequência do procedimento, que motivou a indução do trabalho de parto.
Importa referir que os desfechos adversos (morte fetal, PPT, RPMPT) relacionaram-se com a complexidade das malformações fetais e, não necessariamente, com o procedimento per se. A taxa de PPT espontâneo antes das 37 semanas foi de 9,9% e menos frequente quando a amniocentese ocorreu depois das 32+0 semanas (9,9% vs 5,8%, p=0,001); não houve diferenças na taxa de PPT espontâneo antes das 37 semanas quando a amniocentese ocorreu entre as 24+0 – 27+6 semanas e entre as 28+0 – 31+6 semanas (9,3% vs 10,8%, p=0,404).
Estes dados sugerem que, apesar das complicações potenciais, a amniocentese tardia oferece um benefício diagnóstico significativo e com um perfil de segurança aceitável, particularmente para gestações com elevada suspeição de patologia fetal.