Por Ana Edral | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia na Unidade Local de Saúde do Algarve – Faro
A translucência da nuca (TN) é um dos marcadores utilizados no rastreio combinado do 1.º trimestre. Quando aumentada, associa-se a maior risco de aneuploidias, outras patologias genéticas, malformações estruturais e morte fetal. Os limites do normal deste marcador estão bem estabelecidos para comprimentos craniocaudais (CCC) entre 45-84mm. Contudo, quando o CCC < 45mm, não se sabe exatamente o valor prognóstico, quais os limites do normal nem o desfecho, mesmo quando normaliza. Os autores desenharam um estudo cohort prospetivo com o objetivo de avaliar os desfechos gestacionais na presença de uma TN aumentada (P99 ≥ 2.5mm) em fetos com CCC entre 25-44.9mm. Foram ainda comparados os desfechos em fetos que normalizaram este marcador na ecografia do 1.º trimestre com os restantes. Incluíram 109 caso – a TN aumentada associou-se a 35.8% de desfechos adversos (22.9% aneuploidias, 6.4% outras patologias genéticas, 3.7% malformações congénitas e 2.8% perdas gestacionais). Na análise dos subgrupos, o risco foi proporcional ao aumento da TN, sendo que a TN ≥ 4.5mm associou-se a um risco de mau desfecho de 52.2%. No seguimento, mesmo quando a TN normalizou no rastreio combinado do 1.º trimestre, 14.3% dos casos apresentaram anomalias, contra 65.2% dos casos em que não normalizou. Este estudo apresenta como vantagem o facto de ser prospetivo, com seguimento longitudinal da gestação até às 4 semanas pós-parto. Nos pontos fracos, destaca-se o risco de viés de seleção pelo facto de não se avaliar a TN por rotina nas ecografias de datação, só incluir casos em que esta chamou a atenção do examinador e o facto de não haver grupo de controlo. Em suma, a TN aumentada na gestação precoce associa-se a desfechos obstétricos adversos. Estas pacientes devem ser referenciadas a centros de diagnóstico pré-natal para aconselhamento adequado, testes genéticos invasivos ou DNA fetal e avaliação morfológica precoce.