SUGESTÕES DA SEMANA

15/11/2024 — Sugestão da Semana por Inês Martins | Clinical and ultrasonographic characteristics of pregnancy-related enhanced myometrial vascularity: prospective cohort study

Por Inês Martins | Assistente Hospitalar de Ginecologia/Obstetrícia na ULS Santa Maria //Assistente Convidada da Faculdade de Medicina de Lisboa

Na reavaliação após interrupção da gestação ou perda gestacional do 1º trimestre pode ser difícil a valorização de alterações miometriais identificadas por ecografia transvaginal. Este estudo esclarece alguns aspetos da vascularização miometrial excessiva (VME) relacionada com a gravidez (do inglês, enhanced myometrial vascularity (EMV)), caracterizada em modo powerDoppler pela presença de vasos miometriais anómalos, abundantes e tortuosos com fluxo de alta velocidade (PSV >20 cm/s), de origem focal ou multifocal, com protusão no endométrio após aborto. Como destacado pelos autores, importa não confundir EMV com malformação arteriovenosa (MAV) – maioritariamente congénita e não associada a gravidez.

Cinco a seis semanas após aborto do 1ºtrimestre, cerca de 1/3 das mulheres apresentavam VME, sendo as alterações mais frequentes após interrupção da gestação (17-39%) do que após perda gestacional (6-19%), OR 3,67 (95% CI, 1.16–11.56).

Associadas às alterações ecográficas descritas, a quase totalidade dos casos apresentava indefinição da linha média endometrial, zona juncional interrompida ou irregular e endométrio não uniforme heterogéneo (muitas vezes com áreas quísticas).

Das doentes com VME, 50% tinha hemorragia uterina anómala e em 30% persistia a deteção de hCG sérica. A atitude expectante é apresentada como adequada, já que resolução espontânea das alterações vasculares ocorreu em 96% dos casos (±5 semanas desde o diagnóstico de EMV e ±10 semanas desde a expulsão do saco gestacional). A extensão da EMV não se relacionou com intensidade de sintomas ou tempo até resolução.

Importa destacar alguns pontos negativos do estudo. Apesar da uniformidade do critério “expulsão de saco gestacional” para diagnóstico inicial de aborto, a eventual evidência de retenção de restos do produto de conceção aquando da reavaliação às 5-6 semanas não foi registada, nem o doseamento da hCG sérica foi repetido de forma seriada, sendo impossível atribuir apenas à EMV os achados clínicos apontados.