Por Andrea Lebre | Assistente Hospitalar Graduada de Ginecologia e Obstetrícia – CENTRO MATERNO INFANTIL DO NORTE – ULSSA
A utilidade da ecografia do 3º trimestre em gravidezes de baixo risco, em particular por volta das 36 semanas, tem sido amplamente debatida por diversos motivos, nomeadamente pela possibilidade de detetar anomalias fetais não identificadas anteriormente.
Este estudo prospetivo incluiu 104.151 grávidas com gestação unifetal, submetidas a ecografia protocolada entre as 35+0 e as 36+6 semanas. Todas realizaram ecografia morfológica do 2º trimestre e 92% também do 1º trimestre.
Foram identificadas alterações morfológicas em 2552 fetos/recém-nascidos (2.5%). Destas, 52.5% foram diagnosticadas no 1º ou no 2º trimestre, 803 (31.5%) apenas na ecografia das 36 semanas e em 408 (16%) casos exclusivamente no período pós-natal. A incidência de anomalia fetal diagnosticada pela 1ª vez na ecografia das 36semanas foi de 0.77% (803/104.151) e de 0.39% no período pós-natal.
As anomalias mais frequentemente detetadas pela primeira vez na ecografia das 36semanas foram a hidronefrose, ventriculomegalia ligeira, defeito septal interventricular, quisto ovárico, rim duplo/unilateral e quisto aracnóide. Algumas, como quisto ovárico, hematocolpos, acondroplasia, microcefalia e malformação da veia de Galeno, foram exclusivamente identificadas nesta ecografia das 36 semanas. As anomalias mais comumente detetadas pela primeira vez no período pós-natal foram alterações dos dedos (poli-, oligo- e sindactilia), anomalias genitais (hipo- e epispádias), pé boto ligeiro, defeito septal interventricular e fenda palatina isolada.
Os dados reforçam o valor da ecografia às 36 semanas na deteção tardia de anomalias em gestações aparentemente normais, especialmente em estruturas anatómicas com desenvolvimento progressivo.
O elevado número de participantes e o desenho prospetivo conferem robustez ao estudo, embora a ausência de uma avaliação sistemática pós-natal represente uma limitação.