Por Cátia Rasteiro | Assistente Hospitalar Graduada de Obstetrícia e Ginecologia – ULS Entre o Douro e Vouga
Determinar a taxa de cesarianas ótima é um desafio. É consensual que deve ser realizada quando existe convicção que será mais vantajosa que um parto vaginal para a mãe e/ou para o feto. Apesar de vários esforços, a taxa de cesarianas tem vindo a aumentar. Nas grávidas com parto anterior por cesariana, a decisão da via de parto pode ser complexa exigindo uma abordagem individualizada.
Os autores deste trabalho exploraram a associação entre níveis limitados de literacia em saúde/dificuldades de comunicação por barreira linguística e a capacidade de participação no processo de decisão partilhada e informada na escolha de via de parto em mulheres com cesariana anterior.
As mulheres com antecedentes de parto por cesariana com baixos níveis de literacia tinham uma probabilidade 40% inferior de planearem um parto vaginal e de terem menos conhecimentos em relação aos riscos/benefícios das opções de parto, quando comparadas com mulheres com literacia em saúde adequada. A probabilidade de mulheres com mais literacia em saúde mudarem de opinião após aconselhamento, na direção de planearem um parto vaginal foi superior. A barreira linguística foi associada à indecisão e baixa satisfação com o processo de decisão partilhada sugerindo um processo ineficaz.
Estes resultados fazem-nos refletir sobre o aconselhamento que fazemos em situações semelhantes. Existe uma necessidade clara de criar um processo de aconselhamento, para este e outros assuntos, que tenha em consideração o conhecimento de fatores que afetem a compreensão e a decisão. Melhorar a literacia em saúde é desafiante, especialmente diante do excesso de informação muitas vezes inadequada. Também a barreira linguística, com o aumento dos fluxos migratórios, é um entrave à comunicação. A melhoria destes aspetos tem potencial para ajudar otimizar a proporção de cesarianas realizadas, aproximando-nos da taxa de cesariana idealizada como perfeita: a que minimiza a morbimortalidade materno-fetal.