Por Joana Félix | Assistente Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia – ULS Matosinhos; Docente convidada da FMUP
A decisão de induzir o trabalho de parto (ITP) requer uma avaliação rigorosa do risco obstétrico, nomeadamente da capacidade fetal para suportar o stress intraparto. A disfunção placentária, frequentemente subclínica, é um fator determinante no compromisso fetal durante o parto. Assim, este estudo visa a avaliar se a disfunção placentária, estimada pelo modelo multivariado da Fetal Medicine Foundation (FMF), se associa a um maior risco de compromisso fetal com necessidade de cesariana após ITP.
Estudo retrospetivo com dados prospetivos de grávidas avaliadas entre as 35+0 e 36+6 semanas no King’s College Hospital. O algoritmo da FMF, que integra fatores maternos, pressão arterial média, índice de pulsatilidade das artérias uterinas, PlGF e sFlt-1, foi aplicado nessa consulta de rotina. Foram incluídas apenas mulheres com indução do trabalho de parto, excluindo partos espontâneos, cesarianas eletivas e fetos com malformações major. As participantes foram estratificadas em cinco grupos de risco de PE e segundo a indicação para ITP. O desfecho principal foi cesariana por compromisso fetal, avaliado pelo cardiotocograma.
De 45.375 mulheres avaliadas, 12.249 foram submetidas à indução do trabalho de parto e incluídas no estudo. Destas, 182 (1,48%) tiveram parto prematuro, 1.444 (11,8%) cesariana por compromisso fetal, 2.243 (18,3%) cesariana por falha na progressão do trabalho de parto e 66 (0,5%) por outras indicações. A taxa de cesariana por compromisso fetal variou conforme a indicação para indução (maior nos casos de restrição do crescimento fetal) e de acordo com o risco de PE calculado pelo modelo FMF. O risco de compromisso fetal aumentou de 7,5% no grupo de menor risco para 25,2% no grupo de maior risco de pré-eclâmpsia, representando um aumento de três vezes.
O modelo FMF para risco de PE às 36 semanas é útil para prever compromisso fetal intraparto após ITP, possibilitando uma abordagem obstétrica mais personalizada e segura, especialmente na decisão do momento e método da indução.