Por Maria Pulido Valente | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia, Serviço de Obstetrícia – Departamento de Ginecologia, Obstetrícia e Medicina da Reprodução – ULS Santa Maria
A sensação de redução dos movimentos fetais no termo é um motivo frequente de ida à urgência. Sendo que, a redução dos movimentos fetais pode, por vezes, traduzir disfunção placentária e associar-se a um risco aumentado de desfechos perinatais adversos (5x mais risco de morte fetal). O índice cérebro-placentário (ICP) baixo permite reconhecer a redistribuição da circulação fetal e a resposta compensatória do feto à hipoxia.
Trata-se de um estudo pragmático, real, multicêntrico e aleatorizado controlado que incluiu 22 hospitais da Holanda e 1 hospital da Austrália. O objectivo do estudo foi avaliar se nos fetos de termo com crescimento normal e com redução dos movimentos fetais, o parto imediato devido ao ICP baixo (<1,1) vs atitude expectante quando o ICP normal, melhorava os desfechos perinatais. Entre 2020 e 2024, 1684 grávidas foram incluídas na análise modificada intention-to-treat. O desfecho primário incluiu um composto de desfechos adversos perinatais – morte fetal, morte neonatal, IA <7 ao 5ºminuto, pH da artéria umbilical<7,10, parto emergente por Estado Fetal Não Tranquilizador e morbilidade neonatal severa. O desfecho primário ocorreu em 12% das grávidas do grupo de intervenção (ICP avaliado com indicação para parto imediato se ICP baixo) vs 15% das grávidas no grupo de ocultação (atitude expectante de acordo com protocolo local) (RR 0,76; IC 95% 0.58-0.99), sendo que não ocorreu nenhum caso de morte fetal. Nas grávidas com ICP anormal (<1,1), o desfecho primário ocorreu em 5 (22%) participantes no grupo de intervenção vs 5 (13%) no grupo de ocultação (RR 1,65, IC 95% 0,48-5,71). Apesar das diversas limitações associadas à natureza do estudo, os resultados mostraram que nas grávidas com redução dos movimentos fetais no termo, a avaliação do ICP nesse momento melhorou os desfechos perinatais.