SUGESTÕES DA SEMANA

31/10/2025 — Sugestão da Semana por Joana Bernardeco | Right ventricular outflow tract obstruction in recipient twins of twin-to-twin transfusion syndrome: 13 years of single-center data and literature review

Por Joana Bernardeco | Assistente Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia- CRI de Medicina e Cirurgia Fetal da Maternidade Dr Alfredo da Costa – ULS S. José.

A síndrome de transfusão feto-fetal (STFF) complica cerca de 10% das gravidezes gemelares monocoriónicas podendo ser tratada através de coagulação laser das anastomoses por via fetoscópica (CLF). Apesar das sequelas neurológicas serem as mais temidas, o risco de cardiopatia, sobretudo no feto recetor não é desprezível. A sobrecarga de volume favorece um remodelling cardíaco que poderá condicionar o prognóstico daquele feto durante o período pré e pós-natal.

Os autores propuseram-se a descrever os desfechos de fetos com obstrução do trato de saída do ventrículo direito (RVOTO – right ventricular outflow tract obstruction) em casos de STFF tratados com CLF e a avaliar fatores de risco para a ocorrência desta condição. Na sua amostra concluíram que ocorreu RVOTO em 8.5% das gravidezes complicadas por STFF sendo que desses, 50% apresentavam melhoria pré ou pós-natal e 25% requereram intervenção cirúrgica pós-natal. Neste último grupo, todos os fetos apresentavam espessamento da válvula pulmonar avaliada por ecografia pré-natal. De entre todos os casos com RVOTO, verificaram que o estadio de Quintero, o doppler da veia umbilical e a regurgitação tricúspide foram fatores de risco independentes para a ocorrência de RVOTO. De facto, RVOTO apenas ocorreu em estádios de Quintero ≥III.

Este estudo veio corroborar a ocorrência de complicações cardíacas no feto recetor em casos de STFF. Contudo, sugere que o aconselhamento seja no sentido de tranquilizar os casais, já que na maioria dos casos, mesmo quando ocorreu persistência de RVOTO pós-natal, não houve necessidade de intervenção cirúrgica.

Trata-se de uma das maiores coortes publicadas no tema (apesar do longo período de estudo), em que foram avaliadas múltiplas variáveis em contexto pré-natal e, apesar do carácter retrospetivo, indica que a avaliação de novos parâmetros de ecocardiografia (por exemplo de função) possam ser incorporados na avaliação destes fetos, com impacto no prognóstico pós-natal.