Por Juliana da Silva Rocha | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia – Serviço de Ginecologia e Obstetrícia – Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa
A prevenção do parto pré-termo permanece um desafio central da Medicina Materno-Fetal, sendo uma das principais causas de morbilidade e mortalidade neonatal. O colo curto no segundo trimestre é um preditor sólido de parto pré-termo espontâneo, mesmo na ausência de fatores de risco. Contudo, o benefício da ciclorrafia em gestações únicas sem parto pré-termo prévio tem sido controverso, com evidência mais consistente apenas para colos extremamente curtos (≤10 mm), deixando indefinido o papel desta intervenção em limiares superiores.
Este estudo, uma meta-análise com dados individuais provenientes de seis ensaios clínicos aleatorizados (n=507), utilizou uma metodologia robusta que permitiu integrar dados das participantes, uniformizar variáveis e realizar análises estratificadas mais precisas. Incluiu grávidas assintomáticas, sem história de parto pré-termo, com comprimento cervical ≤25 mm, randomizadas para ciclorrafia ou vigilância expectante/progesterona.
Na análise global, a ciclorrafia não reduziu significativamente o parto pré-termo <37 semanas. Contudo, no subgrupo com comprimento cervical ≤20.9 mm antes das 24 semanas, observou-se redução significativa do parto pré-termo (30.9% vs 41.5%; RR 0.75) e aumento da latência até ao parto (p<0.05). Este estudo contribui ao identificar um potencial novo limiar clínico de benefício (≤20 mm), reforça o valor das meta-análises com dados individuais e pode auxiliar a clarificar uma área de incerteza prática. Entre os pontos fortes destacam-se a qualidade metodológica e a baixa heterogeneidade; entre as limitações, a escassa utilização de progesterona e dados neonatais incompletos. Em síntese, apesar da redução do parto pré-termo e do prolongamento da latência neste subgrupo, a decisão sobre a realização da ciclorrafia deve ser individualizada, ponderando a magnitude do benefício, os riscos do procedimento, apesar de reduzidos, e as recomendações atuais das sociedades científicas.