Por Alexandra Miranda | Assistente Hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia, ULS Braga // Assistente Convidada da Escola de Medicina da Universidade do Minho
A seroconversão materna para o Citomegalovírus (CMV) no primeiro trimestre constitui o principal fator de risco para infeção congénita, responsável por morbilidade neurológica e perda auditiva nos recém-nascidos infetados. O intervalo prolongado entre o diagnóstico da seroconversão e a confirmação ou exclusão de infeção fetal através de amniocentese é uma limitação da abordagem convencional, condicionando incerteza clínica e ansiedade parental.
Neste estudo de coorte (n=422), a PCR para CMV realizada em vilosidades coriónicas às 14 semanas revelou positividade em 5,7% das grávidas, correlacionando-se com transmissão vertical em 89,4% e maior probabilidade de recém-nascidos sintomáticos. A negatividade do teste apresentou elevada robustez prognóstica, com especificidade de 98–99% e valor preditivo negativo de 92–97% para infeção congénita, sintomas ao nascimento e perda auditiva neurossensorial. Nenhuma infeção fetal foi registada quando a PCR para CMV foi negativa no trofoblasto, sangue materno e urina no primeiro trimestre da gravidez. Entre as mulheres com PCR para CMV negativa nas vilosidades, apenas 4,8% apresentaram infeção fetal subsequente e apenas 2,2% dos recém-nascidos demonstraram sintomas. Adicionalmente, o tratamento com valaciclovir, administrado em 96,7% das mulheres, reduziu a ocorrência de sintomas neonatais (3,2% vs. 21,4%). A transmissão vertical tardia, após 17 semanas, associou-se a bom prognóstico, sem sequelas neurológicas ou auditivas.
Estes resultados demonstram que a PCR para CMV em vilosidades coriónicas é um instrumento diagnóstico e prognóstico altamente específico, permitindo antecipar a estratificação de risco, orientar decisões clínicas e reduzir o período de incerteza inerente à abordagem convencional da infeção primária por CMV na gravidez.