SUGESTÕES DA SEMANA

06/03/2026 — Sugestão da Semana por Christopher J. Saunders | A practical approach to immune thrombocytopenia in pregnancy

Por Christopher J. Saunders | Assistente Hospitalar em Hematologia Clínica no Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil e no Hospital CUF Descobertas // Assistente Convidado da Católica Medical School – Universidade Católica Portuguesa

O artigo “A practical approach to immune thrombocytopenia in pregnancy” apresenta uma abordagem estruturada e pragmática para o diagnóstico e tratamento da trombocitopenia imune (TI) na gravidez, realçando o diagnóstico diferencial. A trombocitopenia é frequente na gravidez, sendo a causas gestacional responsável por cerca de 75% dos casos, enquanto a TI representa aproximadamente 4%.

Os autores propõem um algoritmo diagnóstico em cinco etapas: (1) exclusão de causas graves (p. ex., pré-eclâmpsia/HELLP, púrpura trombótica trombocitopénica, leucemia aguda); (2) a importância do esfregaço de sangue periférico; (3) avaliação da gravidade da trombocitopenia; (4) análise do momento de início; e (5) determinação da necessidade de tratamento urgente. Esta sistematização é particularmente relevante na prática clínica, pois orienta decisões rápidas e seguras num contexto obstétrico onde múltiplas etiologias coexistem. Realço ainda a importância da revisão diagnóstica de TI prévia à gravidez, sobretudo em mulheres jovens e com história pregressa de discrasia hemorrágica (p.ex., menorragias). Nestes casos é fundamental confirmar o diagnóstico hematológico, excluindo as causas de falência medulares ligeiras (que podem ser tardiamente diagnosticadas em idade adulta) e outras causas de alteração da hemostase primária (como acontece na doença de von Willebrand, em que um dos subtipos pode cursar com trombocitopenia).

O tratamento da TI na gravidez deve ser individualizado. Corticoterapia (preferencialmente prednisona ou metilprednisolona) e imunoglobulina intravenosa (IgIV) constituem a primeira linha, com perfis de eficácia semelhantes e segurança aceitável. A IgIV oferece uma resposta mais rápida, útil perto do parto. Terapias de segunda linha — agonistas do recetor da trombopoietina (TPO), rituximab, azatioprina ou ciclosporina — podem ser consideradas em casos refratários, ponderando riscos maternos e fetais. A esplenectomia é raramente necessária.

No planeamento do parto, o artigo resume limiares de contagem plaquetária: ≥50×10⁹/L para cesariana e cerca de ≥70×10⁹/L para analgesia neuroaxial, reconhecendo a limitação da evidência disponível. A maioria dos casos neonatais apresenta trombocitopenia ligeira e autolimitada.

Em termos de unmet needs, persistem lacunas importantes: ausência de ensaios clínicos robustos em grávidas; incerteza sobre limiares ideais para anestesia neuroaxial; dados limitados de segurança a longo prazo dos agonistas do TPO; e falta de preditores fiáveis de trombocitopenia neonatal grave. Estes aspetos reforçam a necessidade de registos prospetivos e investigação multidisciplinar para otimizar cuidados baseados em evidência, sobretudo, na população obstétrica.