Por Ana Paula Machado | Assistente Graduada de Ginecologia e Obstetrícia – USL de São João, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
Numa época em que a utilização de agonistas dos recetores do glucagon-like peptídeo-1 (GLP-1), para tratamento da obesidade, tem aumentado de forma exponencial, existe uma grande probabilidade de uma grávida se apresentar em consulta a fazer este tipo de medicação. A preocupação com os efeitos maternos e fetais resultantes da exposição à semiglutida na gravidez, tem motivado a realização de múltiplos estudos observacionais. As agências de farmacovigilância desaconselham o uso do medicamento na gestação, por falta de estudos de segurança e, atualmente, é recomendada a sua descontinuação dois meses antes da tentativa de conceção.
Mas concomitantemente, as Sociedades de Obstetrícia reiteram a necessidade de perda de peso pré-gestacional nas situações de obesidade, tendo em consideração a importância desta entidade clínica como fator de risco para a ocorrência de maus desfechos obstétricos.
O presente estudo, uma coorte retrospetiva com 3433 mulheres, pretendeu avaliar o ganho ponderal gestacional e a ocorrência de maus desfechos maternos, em grávidas utilizadoras de semiglutida durante a gravidez comparativamente com utilizadoras previamente à gestação e não utilizadoras.
Para este efeito foram criados três grupos de grávidas: 1º) exposição à semaglutida na gravidez (n=429), 2º) utilização de semaglutida prévia à gravidez (n=801) e 3º) gestantes obesas/excesso de peso sem antecedentes de consumo do fármaco (n=2203).
Comparativamente com as grávidas obesas/excesso de peso não utilizadoras da semiglutida, as mulheres expostas na gravidez ao análogo do GLP-1 bem como as utilizadoras prévias à gravidez apresentaram significativamente maior risco de ganho ponderal excessivo, diabetes gestacional, crescimento fetal excessivo e cesariana.
Não se verificaram diferenças nos desfechos obstétricos entre as grávidas que interromperam o fármaco antes do início da gravidez e as que mantiveram a toma na gestação.
Assim, os autores consideram que o efeito da suspensão da semiglutida, com o reportado rápido ganho ponderal e as consequentes alterações metabólicas associadas, poderá estar na origem do aumento do risco das complicações obstétricas observadas.
De referir que este estudo apenas avaliou desfechos obstétricos maternos, sendo muito importante, de futuro, investigar os potenciais riscos para o desenvolvimento fetal.